Spectacular, spectacular.

Brilliant.

Aqueles dias

Já no final, penso: como queria meus dias pra sempre assim. E passou tão rápido, voou. Quantas coisas aconteceram em 4 semanas que eu ensaiei as minhas saídas de casa, pra enfrentar coisas que eu não sabia, pessoas que eu não conhecia, coisas que eu não queria lembrar. Preciso estudar, crescer, focar: quero ser que nem você, digo alto, enquanto tiro os sapatos e calço os chinelos para entrar naquela casinha e tomar uma xícara de chá, pra me lembrar que estou tendo acesso a um mundo de infinitas possibilidades, referências, mas também angústias, todas ali, nos móveis, quartos, camas, estúdio. Nos seus cabelos. Como vou sentir falta das suas piadas, da sua falação, do teu processo criativo crítico e da melhor qualidade, artista de verdade como procurava como referência, que me surpreende quando grita bobagens para o garçom ou me liga, me lembrando que é teu jeito, uma pessoa com idéias brilhantes, e como eu queria ser assim. Sempre achei que fosse admiração, mas agora acho que vou sentir mesmo a tua falta. Não só de tudo que me proporcionou, mas de você como pessoa, e não quero me despedir, não quero deixar de te ver mas também não acho que é amor, coisas que não constam em nosso vocabulário pobre de palavras afetivas, mas que constam na vida. Como isso? não sei.

Foram boas semanas. Me fez crescer, olhar pro passado, ter coragem pra dizer adeus e focar nas coisas que estão por vir. E vai ser bom, de novo. E é arte, eu sei, eu sabia que era, não deveria ter caído no conto do capital, do empreendedorismo de fachada, das pessoas que tem boas idéias e coração interesseiro, pobre de espírito, de bom dias, de obrigados.

Sei lá. mas tu foi tipo um puxão no ombro, pra me dizer: pera lá, você é boa nisso, eu confio em você, então cade aquela criatividade? cadê a postura, os questionamentos, o pensamento complexo, a experimentação, a beleza? A arte. Cadê a sua voz que já não te ouço.

Grita.

O silêncio é mais intenso:

“mas aí você pergunta como as coisas estão e parece que você se importa. Que você é boazinha. E você não é boazinha.”

Eu posso viver sem você. Claro que posso. Posso ficar sem você, e não vou morrer se isso não acontecer. Tem gente que diz que amar alguém é não conseguir viver sem aquela pessoa. Morrer se ficar sem ela. Não concordo. Isso seria falta de escolha. Se você não consegue, mesmo se não amasse teria que ficar com a pessoa. Por isso, eu conseguiria ficar sem você e, como já disse, não morreria se você me deixasse. Não mesmo. Eu posso ficar sem você. Mas eu não quero. Eu continuaria a escrever, a trabalhar e tudo mais, mas com você, eu escrevo muito melhor, e trabalho com muito mais vontade e com humor. Eu continuaria vivendo, continuaria por aí, no mundo, pela vida. Mas com você minha vida seria muito melhor, e andar por aí no mundo seria muito menos doloroso e penoso, e pareceria um passeio de domingo.

Marcos Pereira

Marcos Pereira é o cara que guarda o meu carro quando vou pra uma das casas aonde trabalho, há aproximadamente um ano. Apesar de ser um bocado de tempo, foram poucas as vezes que nos vimos - talvez 10, ou até menos. Marcos Pereira tem 47 anos e já foi procurado pela polícia, passou 5 dias desacordado, morou na rua durante mais de 10 anos, começou um curso de Letras aos 17 anos, é da igreja cristã mas também da messiânica, foi até o céu e o inferno e não tem filhos nem esposa. Nem pais. Marcos Pereira trabalha na mesma rua há 10 anos, sempre das terças aos domingos, das 22h às 4h. 

Marcos Pereira vive esquecendo o meu nome - de modo que me pergunta 3 ou 4 vezes na mesma conversa “desculpa, qual é o seu nome mesmo?” - mas simpatiza comigo e vive me dizendo para não sumir. Hoje fiquei 40 minutos ouvindo suas histórias loucas, sem saber se ele estava me sacaneando ou se tudo aquilo era verdade. Na verdade, pra mim tanto faz, uma vez que a verdade é relativa. Marcos Pereira acha que eu sou iluminada, e ele não é a primeira pessoa que diz isso. Eu tenho uma certeza: Marcos Pereira precisa de alguém para ouvi-lo. Hoje em dia, ninguém ouve ninguém. Eu gosto de ouvir. Pode ser isso - que não deixa de ser um dom, em tempos modernos onde corpos não andam, mas se arrastam, e não existem, mas sobrevivem - ou pode ser que eu realmente tenha alguma coisa de diferente. O que me pegou foi que, no final da nossa conversa, Marcos Pereira me disse pra orar. Agradecer, pedir. Fiquei pensando naquilo. Pensei nas pessoas que conheço, amigos ou pessoas que conheci em trabalhos, em pessoas como Marcos Pereira, e entendo que talvez eu tenha que agradecer, de algum modo, a isso. A poder conversar com uma pessoa como Marcos Pereira, como com uma outra pessoa qualquer, e aprender alguma coisa disso. Nem que seja apenas lembrar que em alguma situação da vida eu ainda sou inocente (no caso, quando eu paro para conversar com um cara que nem conheço às 3h da manhã e passo a acreditar nas coisas que ele diz), ou em como as pessoas são verdadeiramente o que elas demonstram ser. Quer dizer, conheço playboys que não sabem falar nada de interessante, enquanto Marcos Pereira pode não falar verdades, mas surpreende com seu vasto conhecimento sobre os assuntos da vida. Isso é rico, e não quero que acabe.

Marcos Pereira está sozinho no mundo, e hoje me pediu um abraço. E eu penso agora que pode ser que ele não abraçava alguém há tempos. 

Ninguém consegue nada que não esteja perseguindo, e eu tinha ido a esse manicômio precisamente buscando a confirmação de uma grande suspeita: a de que a solidão é impossível, pois está povoada de fantasmas.

—Enrique Vila-Matas

Ser melhor

menos pra mim,

mais pros outros.

:) lembranças marcantes que fazem a diferença.

Be grateful.

“você mudou o óculos, o cabelo, até o perfume”

gente que lembra do teu perfume. <3